“Estamos Salvos !”
Acadêmico Jorge Elias Kalil Filho
O monitoramento de múltiplos ensaios clínicos de vacinas contra a Covid-19, que contaram com o apoio do governo dos EUA, foi objeto de um pronunciamento registrado em duas publicações: uma no NEJM Evidence e outra no The Journal of Infectious Diseases. Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a Covid-19 uma pandemia global. Passado o pior momento da crise, o saldo de mortes já alcança 6,5 milhões de pessoas. Em maio de 2020, os Estados Unidos iniciaram a Operação Warp Speed, uma iniciativa que reuniu governo, universidades e a indústria com o objetivo de acelerar o desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19 — daí o nome "Warp Speed", que remete à velocidade de um arpão. Para avaliar essas vacinas em desenvolvimento, foi criado um comitê único de monitoramento, o Data and Safety Monitoring Board (DSMB), responsável por revisar todos os estudos financiados pelo governo americano. O DSMB era composto por especialistas em pesquisa clínica, ética e bioestatística. Sua função incluía avaliar a utilidade das vacinas (ou seja, se eram ou não eficazes), identificar reações adversas e suas gravidades, e verificar se tais reações estavam associadas ou não à vacina. Também analisavam a eficácia geral e como variáveis como idade, sexo, etnia e comorbidades poderiam influenciar os resultados. Além disso, o comitê buscava identificar os chamados correlatos de proteção. As reuniões do DSMB ocorriam semanalmente, duravam cerca de três horas e se mantiveram nesse ritmo por quase dois anos. O comitê contou com sete integrantes americanos e treze estrangeiros - Entre eles, representantes da África do Sul, do Reino Unido e do Brasil — cobrindo todos os continentes. Eu tive a honra de representar a América Latina. O processo de trabalho funcionava da seguinte maneira: o laboratório ou grupo de pesquisa responsável pelo protocolo do estudo enviava regularmente os dados, de forma cega, a um grupo estatístico contratado. Esse grupo realizava as análises com os dados completos (com a distinção entre quem recebeu vacina e quem recebeu placebo), sob estrita confidencialidade. Em seguida, preparava tabelas e relatórios para serem apresentados nas reuniões com o DSMB, onde analisávamos as diversas variáveis e buscávamos compreender o que estava acontecendo. Se fosse identificado algum evento adverso grave, o comitê poderia, inclusive, recomendar a interrupção do estudo. Após a análise dos dados, o DSMB encaminhava seus relatórios a um grupo designado pelo Instituto Nacional de Saúde (NIH), que supervisionava os trabalhos. Esse grupo então avaliava nossas recomendações e repassava orientações ao grupo de pesquisadores ou ao laboratório responsável pelo estudo. Analisamos cinco vacinas: Moderna, Johnson & Johnson, AstraZeneca, Novavax e Sanofi/GlaxoSmithKline. Cada uma utilizava tecnologias diferentes, e os ensaios clínicos contaram com aproximadamente 30 mil participantes, no caso da Johnson & Johnson, esse número chegou a quase 40 mil. Em cada estudo, avaliávamos diversos aspectos já mencionados: as definições dos desfechos primários (isto é, o que a vacina se propunha a prevenir), os critérios de elegibilidade dos participantes, o cronograma de visitas, os métodos de coleta de dados, os testes utilizados para detectar infecção e soropositividade, os objetivos de eficácia propostos, os mecanismos de controle e segurança dos bancos de dados, entre outros parâmetros. Analisávamos os impactos positivos e negativos de todos esses fatores. Entre todas as vacinas avaliadas, a que teve o desenvolvimento mais rápido foi, sem dúvida, a da Moderna. A vacina da AstraZeneca nunca chegou a ser aprovada nos Estados Unidos. A da Johnson & Johnson foi aprovada, mas acabou não sendo utilizada no país. A vacina da Novavax recebeu aprovação bem mais tarde, e o estudo da Sanofi/ GSK foi interrompido. Mas o que eu realmente gostaria de destacar é o ponto que mais me marcou: ter participado de um estudo de tamanha importância para a humanidade. Estávamos diante de uma situação em que, claramente, a única esperança para salvar vidas em escala global era o desenvolvimento de uma vacina eficaz, capaz de ser distribuída em todo o mundo. Tivemos uma reunião decisiva no dia 18 de dezembro de 2021, um sábado. E por que justamente num sábado? Porque o que iríamos deliberar naquele dia tinha potencial de impactar significativamente as cotações em bolsa das empresas envolvidas no desenvolvimento da vacina. Era uma responsabilidade enorme. Foi com imensa satisfação que observamos os dados: a vacina apresentava pouquíssimos efeitos colaterais e, naquele momento, uma eficácia de cerca de 98% na prevenção da doença, um resultado extraordinário. É claro que essa eficácia viria a diminuir com o surgimento de novas variantes, mas naquela fase era uma proteção robusta. E mesmo com o tempo, a vacina continuou eficaz para prevenir formas graves da doença, principalmente por conta da resposta imunológica mediada pelas células T. Ao final daquela reunião, naquele sábado, saí do meu escritório com lágrimas nos olhos. Disse à minha esposa: “O mundo tem uma vacina que protege. Não estaremos mais todos vulneráveis a uma doença grave. Muitas vidas serão salvas, porque essa vacina terá um impacto profundo na humanidade.” Esse momento me marcou profundamente. Como médico, não estava ali avaliando um tratamento para um único paciente ou um grupo restrito, mas contribuindo para algo que beneficiaria a humanidade inteira. E fico muito feliz em ter sido indicado por Anthony Fauci, então Diretor Geral dos National Institutes of Health (NIH) para compor aquele grupo. Foi uma honra poder oferecer essa contribuição em um momento tão crítico. Até então, nada poderia nos salvar, a não ser uma vacina com aquela qualidade e eficácia. Depois da reunião, disse à Liana, minha esposa e companheira: - “Estamos salvos”, já há uma vacina eficaz contra a covid-19!



